Stephen Shore e o jogo da fotografia

Stephen Shore e o jogo da fotografia

Stephen Shore e o jogo da fotografia

Pensando sobre o mito Stephen Shore, vejo que nem sempre é simples enxergar e perceber o que uma foto diz, ou como ela fala com a gente. A fotografia é uma linguagem visual que pode ser feita tanto de sutilezas, como complexidades. E é exatamente entre esses dois pontos, ou em um cruzamento deles que vejo o trabalho do americano. Talvez por isso, a obra desse camarada nunca seja tão óbvia como pode parecer à primeira vista.

Quando pesquiso sobre gente que me inspira, romanceio, vou atrás de detalhes e as vezes tento me colocar dentro dessas histórias. Descobri que em sua jornada, Shore tem como marco uma constante busca pela novidade e por evitar repetições. Ele escolheu esse caminho principalmente depois de um jantar, quando ainda era jovem. Entre muitos convidados, ele também dividiu a mesa com o consagrado fotógrafo Ansel Adams, já no auge de seus 85 anos. O ascendente fotógrafo Stephen Shore viu Adams tomar seis copos grandes de vodka pura antes de se lamentar por ter criado algo efervescente 30 anos atrás, e de ter se prendido a uma repetição desse mesmo trabalho.

Quando penso nesse episódio, fico imaginando se seria um arrependimento de Adams por não ter desenvolvido também a fotografia em cores dentro do seu trabalho, assim como criou um processo complexo para o preto e branco. Acredito que Ansel Adams temeu a cor, e ainda que a tenha dominado imageticamente, acho que ele não conseguiu lidar com ela em seu psicológico para poder interpretá-la conceitualmente. Não sei se Stephen também teve medo, mas naquela noite ele escolheu que tentaria ir para uma outra direção sempre que percebesse que estava jogando o jogo como todo mundo.

Se você também gosta de dar um clickinho, sabe como é gostoso quando se olha no visor da câmera e percebe que está chegando perto de algo potente. Alinhar o seu momento com o do mundo e então apertar o botão é uma verdadeira confluência energética, que pode fazer explodir o mais intenso gozo criativo. Vejo o Stephen como um cara que ama dar um clickinho e conhece o prazer de resolver os enigmas visuais oferecidos pelo mundo. Ele é um cara que gosta de jogar esse jogo da fotografia, mas nunca quis ficar preso em uma mesma posição.

O fotógrafo encontrou uma partida especialmente interessante em um cruzamento de Los Angeles, onde havia um posto de gasolina em cada uma das quatro esquinas. No dia 21 de Junho de 1975, ele fez essa foto:

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Stephen estava em êxtase! Há tempos ele vinha fazendo malabarismos para criar uma estrutura de imagem que tivesse esse nível de complexidade, onde ele conseguisse entender o espaço ao seu redor e comprimir com densidade os planos e suas camadas de significado, criando o máximo de sensação de tridimensionalidade e imersão. Aquela foto tinha tudo isso, uma grande sobreposição de símbolos da cultura americana perfeitamente equilibrados.
Depois de guardar sua enorme câmera 8x10, Stephen foi comemorar em um bar, que ficava virando à direita na rua que vemos na foto. Ele já se sentia flutuando na leveza do chopp gelado quando, de repente, um pensamento invadiu sua mente. Stephen reconheceu aquela paisagem urbana tão bem estruturada e descrita de forma monumental. Ela vinha de uma pintura de Claude Lorrain, feita há longos três séculos!
Um alarme soou em sua cabeça, avisando que uma solução do século 17 tinha sido usada para um problema visual do século 20. Ali começava uma noite de inquietação em que ele ficou acordado pensando naquela imagem até o amanhecer. Stephen precisava fazer algo a respeito, voltar para aquele cruzamento e resolver o encontro dos quatro postos de gasolina de um jeito que tivesse o gosto da experiência de viver o seu próprio tempo. No dia 22 de Junho, nem 24 horas depois de ter apertado o disparador pela última vez, ele fez esse outro clickinho:

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Tenho que assumir, boa parte do último parágrafo que você leu foi invenção minha. Eu não sei o que aconteceu entre uma foto e outra, mas em algum momento depois do primeiro click Stephen realmente se lembrou da relação entre a estrutura da sua primeira fotografia com a dessa pintura de Lorrain:

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Fico ficcionando sobre o que aconteceu naquela noite porque é fascinante como ele conseguiu se manter atento ao processo criativo, detectar uma referência que estava guardada em alguma gaveta da memória e, mais ainda, se sentir instigado com a adrenalina despertada pelo desafio criado por ele mesmo a partir da sua experiência fotográfica.

Analisando essas duas fotos, o fotógrafo Blake Andrews ressalta que, ou Stephen é um laboratorista de filme colorido extremamente rápido, ou ele fotografou no segundo dia apenas com a memória do que havia produzido no dia anterior. De qualquer maneira é de fato impressionante, e por isso fico imaginando que Stephen deve ter ficado enumerando todas as decisões diferentes que poderia tomar.

Quis entender na prática quais são essas diferenças, e comecei por tentar desconstruir estruturalmente as duas imagens para poder compará-las melhor.

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A decisão inicial de Stephen, em ambos os casos, foi a de definir o ponto de vista da foto, ou determinar a direção do olhar em relação ao espaço. Enquanto a primeira imagem é muito mais chapada e com ponto focal em seu centro, a segunda tenta ter o máximo de perspectiva em relação ao espaço que mostra. É nessa hora que fico imaginando novamente o que ele pensou antes de voltar a esse lugar e como era a sua memória sobre ele. Será que ele se lembrava dessa segunda perspectiva?

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Essa simples mudança de decisão altera completamente como o restante da fotografia se encaixa, o que fica claro comparando as fotos por suas linhas retas:

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A primeira tem muitos cruzamentos entre as longas linhas verticais e horizontais, que criam ângulos retos. Já a segunda tem um fluxo mais orgânico pela direção das linhas de diferentes tamanhos. Eu acho que as linhas curvas evidenciam a diferença entre elas, e é quando o fotógrafo deixa o ponto de vista clássico e parte para algo mais irregular e caótico.

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Stephen distribuiu os elementos no primeiro quadro como uma espiral. Enquanto isso, na segunda foto, a maioria dos elementos está agrupado na faixa central, fluindo como uma flecha para a direita.

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No momento em que o fotógrafo equilibrou os pesos visuais e pôs o ponto focal da primeira imagem no centro, ele deixou a forma e conceito fechados em sí mesmos. Por outro lado, na segunda fotografia ele se expressa de uma maneira muito mais ambígua, o que dá a sensação de ser uma história em aberto. Ele faz parecer que essa segunda foto foi feita sem esforço, como se fosse algo casual, e tira a atenção sobre a maneira como ele estrutura a imagem.

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Poderíamos continuar fazendo comparações, como por exemplo, entre a diferença da luz de cada foto, as paletas de cores, do tempo ou até o conteúdo de cada uma das imagens. Acho, porém, que já dá para ver a força do trabalho de Stephen quando ele levanta todas essas perguntas. Ele sugere respostas e abre a discussão sobre aprofundar o estudo da língua fotográfica e assim consegue ter mais domínio de como se expressar por meio dela.

Apesar das diferenças entre as duas imagens, é ainda mais impressionante como elas conseguem ser complementares, como é possível ver, por exemplo, nessa montagem que vi no blog do Blake Andrews que me deixou de cara:

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O próprio fotógrafo diz que se alguém conhece alguma dessas fotos, provavelmente é a primeira. Ele entende que o fato de ela ser mais facilmente interpretada é justamente por seguir uma série de convenções clássicas, estabelecidas há muito tempo. É curioso que ele continue apresentando as duas imagens, sem pensar em melhor ou pior, boa ou ruim, mas como parâmetros visuais de tempos diferentes.

Fiquei muito empolgado quando o Ricardo Reis me convidou para pensar um curso de imersão que se apoiasse no trabalho do Stephen. Eu também sou alguém que gosta do jogo da fotografia, e sei como é importante entender em quais posições posso ser um melhor jogador. Isso não quer dizer que vou deixar de explorar todas as outras possibilidades que enxergar, e mesmo que eu seja um atacante jogando de goleiro, é muito enriquecedor saber o que se vê do outro lado da linha.

Sempre buscar por novos caminhos pode ter sido a mais importante das decisões fotográficas de Stephen, e eu compartilho do seu desejo de tentar ser um melhor clickeiro o tempo todo. Junto com o Ricardo, estou pensando nesses modos subversivos de pensar a fotografia para propor um curso menos formal e mais fluído, onde o domínio da linguagem e a intenção do cada participante vai servir também como matéria-prima. Quando dominamos o jogo da fotografia, ele é muito mais complexo e profundo. Se você também quer vivenciar a fotografia nos seus mais intensos jogos, venha viver uma semana com a gente no curso de Imersão Fotográfica.

Nos vemos na próxima esquina, tchau!

Por Gabriel Cabral

Referências:
www.stephenshore.net/writing/formandpressure.pdf

https://www.youtube.com/watch?v=87mtyO0fPdA

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