O Acaso - Victor Moriyama

O Acaso - Victor Moriyama

Sou meio místico, aprendi com meu avô desde pequeno a meditar ao acordar, mentalizando boas vibrações para o dia e para a vida. Uma espécie de ode ao presente. Acredito na intencionalidade que aplicamos em cada gesto ou palavras que colocamos no mundo. Há, ao meu ver, uma espécie de efeito boomerang responsável pelo retorno desta intenção para nós mesmo. A sabedoria popular nos ensina que “ tudo que vai, volta”, ou ainda, “ fiquei de orelha quente enquanto falavam de mim na rua de baixo”. Com a fotografia não poderia ser diferente, quando começamos um projeto, delimitamos alguns contornos que possam nos guiar no seu decorrer mas estes limites devem ser flexíveis e devemos estar atentos e abertos ao acaso, a tudo aquilo que não foi previsto. Eu acredito plenamente no fator inesperado da vida, e acho que ele à deixa especial e generosa. “Imprevistos acontecem”, sim, a todo instante, e como incorporá-los no ato fotográfico? É preciso estar atento e aberto a eles. 
Puxei minha mãe, somos um tanto viciados no trabalho, mas acho que é assim quando se ama a profissão, não há barreiras nem tempo ruim. É como acordar cedo num domingo de ressaca para jogar futebol. Vale a pena.

Em Agosto do ano passado, estava finalizando um trabalho em Recife quando meu irmão me incentivou a visitar minha tia e meus primos em Natal, RN - um busão atravessando o Nordeste, nada mal. Uma rápida pesquisa no google e pronto, descubro que a capital do Rio Grande do Norte figurava naquele ano como a mais violenta do país, consequência da chacina ocorrida em Janeiro na penitenciária de Alcaçuz entre as facções rivais PCC e SDC. O confronto deixou 26 mortos e mais de 50 presos foragidos e escancarou novamente a já sabida crise do sistema prisional brasileiro. Acionei minha companheira de reportagens a canadense Jill Langlois com o intuito de fazer uma espécie de raio-x da violência na cidade. O jornal Los Angeles Times, com o qual colaboramos com frequência, aprovou minha proposta e lá fomos nós visitar a nova ala reformada da penitenciária de Alcaçuz.

Meu objetivo era mostrar a violência crescente nos bairros periféricos cuja disputa de poder entre as duas facções fazia dezenas de mortes por semana. Acompanhei o trabalho dos policiais da DHPP (Divisão de Homicídios da Polícia) durante uma semana. Nos primeiros 4 dias, um marasmo só... nenhuma ocorrência. “ Você é pé frio” brincava comigo um agente. Na sexta-feira a bala comeu solta e ficamos mais de 24h nos deslocando por cenas de crimes por toda a cidade. Naquele final de semana de Agosto a cidade registraria mais de 25 assassinatos.

Precisava voltar para São Paulo, uma pena, sentia que deveria ficar mais tempo na cidade pois as questões mais profunda começavam a se mostrar após 10 dias de vivência. Ao me despedir dos policiais esbarro em um amontoado de ferro enferrujado num local esquecido dentro da delegacia. “Isso aí é uma amostra dos armamentos que os presos usaram na rebelião de Alcaçuz” - petrifiquei. As jóias do tesouro estavam ali bem diante dos meus olhos, pensei: “vou esticar mais umas horas por aqui, montar um fundo branco improvisado em uma cela vazia e fotografar estas quatro armas como peças arqueológicas da violência brasileira”. “Rapaz, lá na delegacia de Nízia Floresta tem um quartinho abarrotado com todas elas, converse com o delegado que ele libera para você fotografar”. A sorte estava lançada. Uma ligação de 4 minutos e pronto, peguei a moto emprestada de meu primo e me despenquei para a cidade adjacente a Natal. Lá estavam elas, todas aglutinadas numa bagunça única dentro de um porão endurecido pelo sol numa delegacia pacata de uma cidade quente. Passei uma tarde fotografando dezenas delas. 

A reportagem para o jornal já estava pronta e não havia espaço para oferecer as fotos das armas. Este material ficou parado no meu HD durante meses. No início do verão o amigo Ig (Ignacio Aronovich) me disse: “Rapaz, você precisa publicar esse material, tenta a Burn” - uma importante revista de fotografia criada pelo legendário fotógrafo da Magnum David Alan Harvey. No dia seguinte desta conversa recebo um email da editora de fotos do jornal francês Libération, eles fariam um artigo sobre o massacre e gostariam de publicar minhas fotos. Usaram 1 foto de seis colunas de presos numa cela e 3 fotos das armas. Logo vi que o dia 14 de Janeiro se aproximava e completaria um ano da chacina ocorrida em Alcaçuz, pensei em oferecer este material para a Folha. O jornal gostou da ideia e publicou na capa uma dezena delas como se fosse uma espécie de catálogo da chacina. 

O acaso age à nosso favor quando estamos conectados com nós mesmos e imersos no projeto. Acho que há um movimento invisível que joga a nosso favor. Aproveitem.

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